O relógio do tamanho da Terra

Profissionais, religiosos, especialistas em geral costumam formar “tribos”, com ideias elaboradas ao longo de muito tempo. Cientistas são muito bons nisso, e posso garantir porque eu mesmo sou cientista por formação. Não exerço ciência, acabei me envolvendo com uma espécie de “arquitetura do outro mundo”, a arquitetura virtual, arquitetura da informação. Esse envolvimento tem me mostrado como estão distantes o arquiteto virtual, o mestre de obras virtual e o pedreiro virtual.

Por enquanto não vou detalhar essas ideias, hoje só farei o papel do “cientista” explicando como ele vê a importância relativa do ser humano no universo, de uma das maneiras como o vemos.

Para começo de conversa – e procurando não ser formal -, cientistas observam, observam muito mesmo, o ambiente, procurando estruturas e descrições funcionais, depois formulam teorias. Se essas teorias forem coerentes, comprovadas por experimentos e bem apresentadas, podem passar ao status de conhecimento científico.

O conhecimento científico costuma demorar muitos anos até chegar ao público em geral, o mais das vezes de maneira parcial e simplificada. Problemas de compreensão acontecem quando as pessoas tentam ligar as próprias observações de vida e o que chega a elas de “conhecimento científico”, através de reportagens, artigos, programas de tv, sites de internet…

Alguns exemplos: muita gente fica com a impressão de que o ser humano existe há muito tempo, de que sua presença, dos animais, das plantas, de tudo quanto existe na Terra é muito importante para o Universo. Realmente o é, mas não da maneira como se tende a imaginar.

Aqui abro parênteses, lembrando que há pessoas e pessoas, percepções e talentos desenvolvidos de maneiras as mais diferentes. Mas isto não faz muita diferença nas imagens internas de ambiente, mundo e universo formadas pelas pessoas.

Mesmo tendo formação científica (sou bacharel em Física), ao pensar na “história do universo” de maneira condensada, imagino um possível big bang bem rápido, no contexto de um universo que talvez esteja se contraindo e expandindo ciclicamente, uma Terra que se formou e logo estava ocupada por dinossauros quase convivendo com seres humanos, tudo num quadro de tempo difuso e sem dimensões claras.

Meu objetivo agora é mostrar um “relógio universal”, uma idealização que dá boas noções da grandeza e das proporções de coisas normalmente fora do alcance da compreensão.

Penso neste “relógio universal” como um grande relógio analógico, com a mesma circunferência da Terra e com um único ponteiro que vai se deslocando muuuito lentamente: um milímetro por ano. O “momento zero” do big bang é um conceito bem difícil de definir e determinar, mas nessa nossa historinha o ponteiro do relógio universal estaria na posição que corresponde ao polo norte terrestre naquele “momento zero”.


Nosso relógio imaginário é grande, mas lento: o “ponteiro” anda 1 mm por ano
Foto: NASA

Pela lógica, temos que imaginar este relógio em um “universo paralelo” que já existisse antes do nosso “big bang”, mas podemos também imaginá-lo trazido agora para nosso universo e aplicado sobre um meridiano da Terra. Observando onde o ponteiro esteve durante a história do universo, da via láctea, do sistema solar e da Terra, é possível entender um pouco mais as proporções das eras e da história humana.

Para finalizar a apresentação do nosso grande relógio, vamos dar uma olhada no local onde o ponteiro estaria agora (e se movendo a um milímetro por ano…). Para dar a volta completa no “relógio”, o ponteiro levaria 40 bilhões de anos, e o tempo transcorrido desde o big bang seria uns 15 bilhões de anos.

Então, aplicando nosso relógio de modo a concidir com a América do Sul, ao longo de um meridiano que passe a uns 70 graus de longitude oeste, o ponteiro estaria a uns 45 graus de latitude sul, ou seja, em algum lugar da província argentina de Chubut – perto da cidade de Comodoro Rivadavia. Seguindo no nosso experimento mental, vamos supor que conseguimos localizar o ponteiro…

Ali está ele: a existência da quase totalidade das pessoas hoje vivas pode ser resumida em menos de 10 centímetros. Quando Pedro Alvares Cabral e Cristóvão Colombo faziam suas descobertas o ponteiro estava a cerca de meio metro de onde está agora. Se calhasse de o ponteiro estar passado por dentro de uma casa, ele hoje estaria no mesmo quarto em que estava quando Jesus Cristo andou pela Terra, pois 2 mil anos equivalem a 2 metros nesse super relógio.

As civilizações mais antigas, como a chinesa, estariam a uns 5 metros, e a posição do ponteiro quando o ser humano começou a se diferenciar como tal estaria a uns 100 ou 200 metros (100 a 200 mil anos). Para chegar à época em que os dinossauros ainda existiam, teríamos que fazer uma pequena viagem, de pelo menos uns 60 quilômetros: o ponteiro estava lá há 60 milhões de anos.

Assim fica bem claro que o ser humano não teria tido o menor contato com os dinos. Vamos fazer uma viagem um pouco maior, só para conhecer um pouco mais do nosso universo demarcado por este relógio. Chegando ao equador terrestre ele marca a época em que a própria Terra começou a existir. Há coisa de 5 bilhões de anos o universo já tinha uns 10 bilhões e em 10 bilhões de anos nosso ponteiro andaria do polo norte até o equador.

E o big bang? Ainda que imaginemos que ele tenha ocorrido num tempo muito curto, parece natural a “explosão” tenha durado pelo menos alguns milhões de anos, ou seja, nosso ponteiro andou centenas de quilômetros enquanto ocorria um “baang” – bem mais longo que o que pensávamos.

PS 1 – um amigo me perguntou sobre como ficaria o criacionismo dentro deste quadro. Minha meta compreensão, ou seja, minha compreensão sobre a compreensão humana, indica que temos tamanhas limitações que ele pode muito bem ter ocorrido. A dificuldade que encontramos nesse caso é explicar por que teria Deus construído tudo em 10 mil anos e se dado ao trabalho de “plantar” tantas evidências verificáveis de que o universo se desenvolveu ao longo de bilhões de anos.

PS 2 – o que podemos dizer sobre vida extraterrestre? Essa foi outra pergunta que me intrigou e da qual pretendo tratar em breve.

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